sábado, 9 de junho de 2012

Sexta Tradição - Por B.L., Manhattan


SEXTA TRADIÇÃO

Por B.L, Manhattan, N. Y.

"Nenhum Grupo de A.A. deverá jamais sancionar, financiar ou emprestar o nome de A.A. a qualquer sociedade parecida ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem de nosso propósito primordial."

O AUTOR EXPRESSA: 
"As Doze Tradições em minha experiência, têm sido vitais para conservar-me sóbrio, e também têm sido úteis em todos os meus assuntos."

(Este artigo foi publicado originalmente na Revista Grapevine e republicado na Revista "EL MENSAJE" de fevereiro de 1975)

Antes que eu tivesse um mínimo conhecimento do que era o A.A., já estava seguro de que poderia melhorá-lo. Recordando agora, me dou conta de que meu atrevimento era aborrecedor, visto que se encontrava firmemente ancorado na minha ignorância. Eu não sabia praticamente nada acerca das atividades de nossa comunidade, e muito menos de seus princípios espirituais. Como eu era demasiadamente orgulhoso para admitir que existisse algo que eu desconhecesse, então não fazia perguntas.

Praticamente nada, na muito escassa literatura de que dispúnhamos então (1945), explicava como funcionava A.A ou as unidades que o compõem, de maneira que meu conhecimento se baseava naquilo que ouvia ou via em meu grupo. Então, como agora, os membros de A.A., tal como todos os seres humanos em todas as partes, falavam uma confusa mexerufada de fatos, adivinhações, suposições, sabedoria infundada, mexericos e bobices. Contudo, eu supunha que aquilo que ouvia era a pura essência da verdade de A.A., e equipado somente com minha pequena coleção de impressões fugazes e informações equivocadas acerca de A.A., queria modificá-lo.

Para mim, por exemplo, A.A. deveria estar informando à classe médica sobre as características de nossa doença, tal como nós a entendíamos. (Naquela época, a Escola de Estudos sobre Alcoolismo de Yale, hoje Rutger, apenas estava se iniciando, e faltavam ainda nove anos para que a Associação Médica Norte-americana estabelecesse seu comitê sobre alcoolismo).

O governo, em minha visão, deveria modificar as leis relativas aos alcoólicos. (A Associação Norte-americana de Programas sobre Alcoolismo e o Centro Nacional para o controle e a Prevenção do Alcoolismo eram, então, sonhos impossíveis).

Centro de desintoxicação, reabilitação vocacional e todo tipo de serviços, o melhoramento da compreensão de nosso problema por parte dos trabalhadores sociais, estudantes, psicólogos e policiais. Tudo isto, e muito mais, o necessitávamos urgentemente. Por que, me perguntava, o A.A. não atua com mais dinamismo nesses campos?

Suponhamos por um momento que nossa comunidade se houvesse realmente orientado para essas atividades. Como teria sido a teia de aranha em que nos enredaríamos? Quantos bêbados teriam sido desprezados e abandonados à própria sorte enquanto nós nos debateríamos em nossas campanhas políticas e financeiras! Quantos inimigos teriam ganhado nossa associação ao procurar ditar cátedra aos profissionais médicos, aos religiosos e às pessoas da área legal.

Se o propósito do meu grupo A.A. tivesse sido adquirir prestígio, dinheiro ou poder, temo que minha própria sobriedade não teria encontrado muita sobre o que se apoiar em nossas reuniões. Não teria havido tempo para a prática do programa Muitos de nós nos teríamos ido, e conosco, provavelmente, até mesmo o A.A. Sic transit gloria mundi*.

Estou seguro agora de que se houvessem estabelecido programas governamentais sobre alcoolismo, dirigidos por A.A., e tivessem fracassado, meus ressentimentos teriam arrasado a minha sobriedade, tão tênue e recém adquirida Suponhamos que se houvesse fundado um clube oficial de A.A., e as autoridades o tivessem fechado por jogo ilegal; ou que as casas de retiro para alcoólicos, administradas por nossa associação se vissem envolvidas em escândalos. O que teria acontecido? Eu teria terminado emocionalmente envolvido, ou, mais provavelmente, alcoolicamente dissolvido.

Como sempre, A.A. como um todo provou ser muito mais prudente e sábio do que eu, individualmente, e do que meu grupo quando queria fazer as coisas a nosso amanho. Ainda sem tantas complicações, para nós era problema suficiente o dar-nos conta do que tínhamos realmente nas mãos. As Tradições não haviam ainda sido escritas.

Inicialmente, críamos que teríamos que fazer pelo menos treis coisas, a saber: primeiro, prover um lugar onde os membros pudessem jogar cartas, comer e tomar café a qualquer hora; segundo, manter um escritório com telefones; como lugar de referência para o Décimo Segundo Passo e dar informação sobre as reuniões e, terceiro, manter trabalhando nossas próprias reuniões e os trabalhos do Duodécimo Passo.

As duas primeiras nos envolveram em operações ilegais de sociedades, problemas financeiros, administração de propriedade de imóvel, manutenção de edifícios, operação da cafeteria, secretárias remuneradas e, naturalmente, regras e funcionários. Como conseqüência, os recém - chegados, que necessitavam apenas da mensagem, saíam defraudados porque nós estávamos muito ocupados resolvendo problemas tais como um cozinheiro bêbado, uma máquina de escrever enguiçada, as divida do clube, a revisão dos estatutos, o mau gênio do faxineiro, as decisões sobre quem não podia fazer uso do telefone, a marca do café a ser comprado, etc. etc.

Desta forma, era quase impossível para os recém-chegados entender a diferença que poderia haver entre unir-se a um clube qualquer ou entrar em A.A.

Eu fui um desses recém-chegados de quem falo.
Aqueles que não conseguiam ser escolhido para os cargos, ou eram despedidos deles, acabavam bebendo. As críticas aos resultados financeiros que a cafeteria apresentava, tornaram-se animosidades contra a estrutura financeira de A.A. ". Dois companheiros a quem eu estimava se desgostaram com a comida que se oferecia na cafeteria, e se foram. (Não me surpreendi, porque em suas treis primeiras reuniões de A.A., somente ouviram falar de comida. Em menos de um ano, ambos morreram.. .de alcoolismo).

A solução que o meu grupo finalmente encontrou, faz um quarto de século, foi muito simples. Decidimos que, por mais excitantes ou necessários que pudessem ser tais atividades empresariais um grupo de A.A. deve permanecer distante delas porque as discussões sobre dinheiro, prestígio ou propriedade nos apartam e nos alheiam dos Doze Passos.

Como grupo de A.A., decidimos levar a mensagem, e ponto! Por conseguinte, nos retiramos do negócio de comida e a administração de imóveis. Alguns membros, atuando de forma individual, formaram corporações sem fins lucrativos, distintas de A.A., para administrar clubes ou lugares de entretenimento dos A.As. que desejavam tal tipo de atividade. Quanto ao escritório central, se conseguiu que fosse sustentado e operado por todos os grupos da vizinhança, e terminou como intergrupo.

Esta modificação tem dado magníficos resultados desde então, tanto em Nova lorque com em todas as partes. E agora, por certo, aqueles serviços realmente necessários para os alcoólicos estão começando a funcionar, mas não sob os auspícios de A.A. A comida, a roupa, a moradia, e a assistência médica são geralmente necessárias para a recuperação do alcoólico. Porém, podem ser administradas muito melhor por outras organizações, com experiência profissional e organização eficiente, qualidades das quais carecem os grupos de A.A.

Certamente, não podemos deixar de lado um fator que quase nunca se menciona, nem de forma verbal e nem escrita: Muitos dos grandes avanços no tratamento de alcoólicos, obtidos no transcurso dos últimos trinta e cinco anos, se devem ao labor prudente e silencioso de membros de A.A., que têm atuado como cidadãos, privadamente interessados no problema de saúde pública.

A Sexta Tradição deixa a cada membro de A.A. a liberdade para assim atuar, se o deseja, conquanto que sua atuação não constitua afiliação ou declinação de A.A. a qualquer iniciativa, nem "emprestem o nome de A.A." para isto. (Há que se ter também em conta o outro lado da moeda. Certa ocasião, um programa distinto do nosso, procurou criar a impressão, maliciosamente, de que contava com o apoio de A.A. Porém sua intenção não obteve sucesso. Os profissionais que atuariam no referido programa pensaram que se tratasse de uma extensão de A.A. e não se interessaram. Eu o sei porque fui o culpado).

A adesão ao nosso objetivo primordial faz com que A.A. seja único, mas também nos confere uma responsabilidade especial, creio eu. Somos as únicas pessoas que não fazem nada além de ajudar ao indivíduo alcoólico porque temos que fazê-lo a fim de que possamos permanecer sóbrios. Ajudamo-lo, não por causas científicas ou humanitárias, mas visando nossa própria sobriedade.

Como resultado disto, os outros programas no campo do alcoolismo chegam a depender fortemente da participação de membros de A.A., fato que vem aumentando. Em cada junta profissional é um fato notório que os não-alcoólicos contam, de forma absoluta, com a ajuda de A. As. sóbrios e conscientes que lembram permanentemente que quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A esteja sempre ali. E por isto, EU SOU RESPONSÁVEL.

* Esta remissão é de autoria do tradutor: "Assim passa a glória do mundo" Frase tirada da Imitação de Jesus Cristo.

* Tradução: Edson H.

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