sábado, 13 de agosto de 2011

Auto-Estima, Culpa e Alcoolismo

Auto-Estima, Culpa e Alcoolismo
Dr. Raul Castro Miranda
Médico Psicoterapeuta
Graduado em Psicanálise e Psiquiatria
Petrópolis/RJ

A auto-estima é a “quantidade de afeto” que cada um tem por si mesmo em um determinado momento da vida. Ela é o resultado de uma intrincada“mistura” de fatores (genética, educação, ambiente, acontecimentos marcantes, etc.) que agem sobre nós, desde a mais tenra infância, e que determinam, entre outras coisas, a maneira como nós lidamos com os nossos acertos e, principalmente com os nossos erros.
Já o sentimento de culpa é a consequência do julgamento que nós fazemos por termos feito algo que consideramos errado, ou por não termos feito algo que consideramos certo.
Ao contrário do que muitos pensam a culpa não é sempre ruim, não. Na verdade, ela é fundamental para a sobrevivência da nossa espécie. Sem ela, estaríamos livres, por exemplo, para agir guiados apenas pelos nossos desejos, sem levar em conta as conseqüências dos nossos atos, que seria muito perigoso para nós mesmos e para o mundo à nossa volta.
Quantos alcoólicos se sentiriam estimulados a parar de beber se não houvesse o sentimento de culpa? O problema da culpa, portanto, não está no sentimento em si, mas na MANEIRA como ela age sobre nossas vidas.
Quando ela obriga o sujeito a refletir e a se modificar para melhor, tudo bem, mas quando resolve massacrar e paralisar a vida do pobre diabo?
Ao contrário do que muitos pensam o sentimento de culpa nos alcoólicos, costuma ser imenso. Já a auto-estima, por sua vez, geralmente está “abaixo do dedão do pé”.
Por isso, frases do tipo “eu paro de beber quando quiser” ou “eu bebo com o meu dinheiro e ninguém tem nada com isso” não devem ser interpretadas como manifestações verdadeiras de prepotência ou arrogância, mas sim, como maneiras às vezes inconscientes de disfarçar a realidade.
Culpa de que? Do que fizeram e do que deixariam de fazer em função da bebida, claro. E o que pode ser feito para melhorar esse quadro?
Em primeiro lugar, é preciso compreender que enquanto o alcoólico está na ativa, ou seja, enquanto ele continua bebendo, é absolutamente saudável embora não seja nada agradável que ele se sinta culpado e com a auto-estima baixa.
Como afirmei acima, é exatamente o sentimento de culpa que poderá fazer com que o sujeito reflita e mude.
Sabe, não é verdade que o ser humano só se modifica quando está sofrendo, mas que muitas mudanças só ocorrem quando ele sofre lá isso é verdade, sim!
Em segundo lugar, é necessário aceitar que não somos nem jamais seremos exatamente como desejaríamos ser. Sempre faltará, em nós, alguma coisa.
Não conseguindo entender e/ou aceitar esse fato, muitos alcoólicos que desejam “largar o copo”formulam para si mesmos, propostas que estão acima das suas capacidades de realizá-las naquele momento (“a partir de hoje, não fumo, não bebo nem tomo mais café”). Com isso, claro, ou fracassam na tentativa, ou simplesmente desistem antes mesmo de começar.
É preciso, portanto, que o alcoólico admita os seus limites e seja realista com as suas metas: - o que eu sou, de fato, capaz de fazer nesse momento? Uma coisa é o desejável, outra, o possível!
Em terceiro lugar, é importante entender que enquanto a NECESSIDADE é aquilo que eu preciso (preciso para de beber porque meu fígado está doente) e a DEMANDA é aquilo que eu afirmo que quero (eu quero parar de beber porque meu fígado está doente), o DESEJO é aquilo que eu faço, de fato, com a minha vida (apesar do fígado estar doente entro no bar da esquina e bebo até cair).
Acontece que nem sempre o que eu faço, na prática, corresponde àquilo que eu disse que faria, na teoria. Por quê? Porque alguns dos nossos desejos são inconsciente, trabalhando tenazmente para que eu continue bebendo.
É por isso que parar de beber não é uma questão de FORÇA de vontade (o inconsciente tem leis e vontade próprias), mas, sim, de BOA vontade (para admitir a minha impotência perante o álcool e o meu inconsciente).
Finalmente, é preciso não esquecer que quando o alcoólico admite a sua impotência perante o álcool, ele está adotando uma atitude de humildade que, quando verdadeira, reduz a sua culpa, e eleva a sua auto-estima.
Por quê? Simples: -porque é preciso ser muito forte, para conseguir ser humilde!

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