segunda-feira, 6 de junho de 2011

A "técnica" do acolhimento em A.A.



A "técnica" do acolhimento em A.A.
(Ana lúcia Mesquita M. Massoni - Psicóloga)

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que conheci A.A. Era uma noite muito quente em pleno janeiro de 1993. (O que eu não podia imaginar era que dentro da sala eu me depararia com um calor humano ainda maior e fora do comum.)

O coordenador ia lendo o roteiro da reunião, explicando a proposta de recuperação da Irmandade, mas o ponto alto era a sucessão de depoimentos de homens e mulheres que tinham a coragem de falar de si mesmos, de suas fraquezas e dificuldades de forma extremamente honesta.

Fui me emocionando cada vez mais, enquanto tentava aproveitar cada palavra dita naquele grupo tão diferente e especial.

Como se não bastasse, fui cercada de atenções e acolhimento na hora do intervalo, assim como o rapaz que eu acompanhava, que era um alcoólico procurando ajuda.

A sensação era de que finalmente havíamos encontrado um lugar em que o alcoolismo dele seria compreendido e também que ali teria chance de mudar o rumo de sua vida.

Naquele mesmo ano, fui procurar especialização na área de álcool e drogas,
visando oferecer a meus clientes um trabalho mais eficiente do que a psicologia que até então eu praticava. Aquilo que eu tinha aprendido na faculdade absolutamente "não dava conta" da problemática dos alcoólicos. Ao contrário, aquelas reuniões de depoimentos que passei a frequentar pareciam "empurrar" as pessoas para profundas modificações.

Observei e comparei, com as técnicas que conhecia, os "ingredientes" dessa fabulosa Irmandade que obtém tantos resultados, no entanto, sem nunca utilizá-los para fins outros que não a própria recuperação.

Em primeiro lugar está o já citado calor humano, cheio de compreensão sobre o problema e o oferecimento de companheirismo e "amor incondicional". O indivíduo é aceito de verdade, seja qual for sua condição física, material,  emocional ou moral; de agora em diante "o problema é nosso", diz um dos lemas de A.A.

Vocês podem não saber, mas esse é um dos princípios de qualquer técnica psicológica. O profissional deve oferecer condições para o cliente ser exatamente quem ele é, sem exigências de modificações que o mesmo não queira realizar, ou seja, o "amor incondicional" é oferecido a partir de um longo treinamento para não impor nada pessoal a quem está sofrendo e precisando encontrar o "seu próprio jeito" de lidar com a situação por si só angustiante.

Um grande psiquiatra francês, conhecido na área de adicções, Claude Olivenstein, diz até que o psicoterapeuta tem que se prestar "a ficar no lugar da droga", oferecendo toda a sua psique (alma em latim) para que o paciente possa se fortalecer na relação humana e abandonar o uso químico.

Assim, vemos que a principal "técnica" de A.A., que na minha opinião é o
ACOLHIMENTO, tem até respaldo científico!

VIVÊNCIA Nº 74 - Nov/Dez. 2001)

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